Fora Silmario! Algumas reflexões sobre a proposta

 



Há algumas semanas, foi proposta no interior do Sinasefe-SP uma campanha com o mote “Fora Silmário!”, pedindo a saída do atual reitor do cargo. Eis algumas reflexões do coletivo Vozes da Base sobre o tema.
 
“Fora Silmario!”: motivos não faltam!

Esta gestão do IFSP se carateriza por vários males em múltiplos eixos, sendo os principais:

1. Fechamento de vários espaços de democracia, de maneira tanto formal quanto substancial.
Talvez  o exemplo mais significativo seja o sigilo sobre as reuniões do COLDIR, que antes eram transmitidas, mas agora acontecem de portas fechadas. Isso contraria um princípio básico da democracia: a transparência. Mas temos também o enfraquecimento de outras instâncias participativas, como o CONSUP, e a prática de impor decisões por portarias, anulando, assim, o processo democrático e fazendo vigorar a vontade do reitor.

Por último, mas não menos importante, o próprio processo de reorganização do IFSP em 5 diferentes reitorias, que, pelos meios adotados, se caracteriza como uma decisão de portas fechadas entre o poder executivo (Lula e Camilo Santana) e a gestão administrativa (Silmário), onde a comunidade é literalmente vista como um rebanho a ser deslocada para lá e para cá.

2. O clientelismo.
Em virtude das eleições para a reitoria e, em seguida e sobretudo, da implementação de novos campi, criou-se um verdadeiro sistema de clientela ao redor do reitor. Como um moderno Imperador Romano, ele aglutinou à sua volta um corpo de pretorianos que lhe juraram fidelidade e que atuam a seu serviço. Fizeram sua campanha eleitoral, puxando votos para que ele continuasse no cargo.

Tal domínio fincou raízes inclusive no sindicato. Sempre que se levanta uma pauta no sindicato que ameace o poder do reitor, ou que somente se proponha a criticar alguma ação da reitoria, aparecem os súditos para defendê-lo incondicionalmente. Essas dinâmicas fizeram até surgir um apelido: “tropa de choque do reitor”.

Mas tudo isso não aconteceu de graça. Muitos dos pretorianos e pretorianas do reitor receberam excelente remuneração: a direção-geral nos campi em fase de implantação; nomeação em cargos especiais que os isentam das tarefas às quais os trabalhadores comuns do IF estão, por obrigação, submetidos (número mínimo de aulas, número mínimos de horas no campus, fila de espera na remoção, etc.). Enquanto há servidores que precisam praticamente se humilhar em processos penosos, burocráticos e infindáveis, ao pedirem o reconhecimento do direito à saúde ou uma remoção por questões familiares que nunca chega, a guarda de elite do reitor tem “foro privilegiado” para escolher o local de trabalho, o cargo e a quantidade de horas trabalhadas.

A análise: não basta o autoritarismo de uma pessoa a explicar a realidade material

Na nossa tradição, tentamos sempre fazer análises embasadas na materialidade e, também neste caso, procuramos nos manter atrelados a esta postura.

Não basta o “mau caratismo” do reitor ou até o seu (individual) desenho de poder para explicar a trajetória onde o IFSP se enfiou. Tudo isso, de fato, não explica como um projeto tão repugnante conseguiu se manter no poder sem olhar para as condições materiais do IF(SP), sendo a principal a falta de recursos financeiros e a necessidade crônica, para a sobrevivência de cada campus, de receber dinheiro “por fora” do orçamento, principalmente mas não de maneira exclusiva, através das emendas parlamentares. Nesta situação de estagnação de orçamento (que, é bom lembrar, foi mantida no governo Lula-Alckmin-Haddad), o Silmario é visto como o “gestor apto”, bem introduzido em Brasília (seja com o governo Bolsonaro, seja com o governo atual), capaz de trazer recursos para o Instituto.

Isto é, na falta do direito, das garantias de orçamento adequado estipulado por lei e amparos jurídicos para o funcionamento do IF, o “coleguismo”, as supostas amizades em Brasília se tornam o principal ativo de um gestor público, contribuindo para a primeira eleição e, de maneira decisiva, para a  reeleição do Silmário.

O papel do sindicato

Neste cenário, num ano em que o sindicato abdicou da luta sindical pelos direitos dos trabalhadores em prol da atuação como cabo eleitoral para a reeleição de Lula, muitos integrantes do sindicato sentiram a tentadora atração pelo poder (da reitoria) para alavancar o seu projeto particular de carreira. Para quem não tem compromisso nenhum com a luta de classes, mas todo o comprometimento com a trajetória de poder pessoal, um convite personalizado vindo do próprio reitor, o reconhecimento como interlocutor(a) privilegiado(a), é algo irresistível e irrecusável.
 
De novo, não se trata (só) de mau-caratismo de um ou outro militante ou dirigente do sindicato, trata-se de uma situação na qual o sindicato atua mais no campo da burocracia do que da luta, e, dessa forma, os burocratas prosperam. 


O equívoco: como se defende a democracia
 
Há uma objeção, ao nosso ver equivocada, contra a campanha, que se apega ao fato de o Silmario, contudo, haver sido eleito pela comunidade do IFSP.
Ora, se ter sido “democraticamente” eleito fosse o escudo para não sofrer campanhas de derrubada, erramos ao chamar o “Fora Collor”? Ou alguém se atreveria a dizer que, recentemente, na Bolívia, o povo que bloqueou o país por quase dois meses, pedindo a renúncia do presidente eleito Paz, estava errado? Imaginamos que não.
 
Inclusive, a nossa tradição denuncia os limites desta democracia burguesa nojenta e oligárquica, e reivindica uma democracia popular e conciliar, onde a revogabilidade do mandato seja uma das características fundamentais para o caráter verdadeiro do próprio processo democrático. Nesse sentido, portanto, pedir a saída do reitor não fere nenhum processo democrático - ao contrário, o fortalece e o aprofunda.


Sobre a proposta: 

Entendemos, portanto, que foi importante levantar esta bandeira e que se trata de uma resposta convergente às exigências reais e legítimas de gestão democrática e transparente, frente aos abusos e ao clientelismo desta gestão.

Defendemos que uma possível campanha precisa denunciar tudo o que levantamos e  não possa se concentrar exclusivamente sobre a “pessoa” do reitor. É preciso, portanto, evidenciar os mecanismos que permitiram essa atuação, sendo o principal a precarização das condições materiais do IF(SP).

Propomos que, primeiramente, seja lançada uma campanha, cuja palavra de ordem não seja, de imediato, “Fora Reitor”, mas sim “Gestão democrática e orçamento já”. Desta maneira, o motivo e o objetivo da campanha ficam mais explícitos, mesmo para quem não acompanha a vida sindical e política do IFSP. Em seguida, a depender do apoio e da resposta tanto da base quanto do reitor, a campanha pode adotar, explicitamente,  o mote “Fora Reitor”.

De todo modo, entendemos também que precisamos debater este assunto nos campi e com toda a militância, a fim de identificar formas mais eficazes de levar a frente esta batalha.

À luta!



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