A postura de um sindicato de classe nestas eleições: uma perspectiva de independência
Toda eleição, repetimos o mesmo roteiro: inicia-se, no SINASEFE, o debate de como se comportar na iminência das eleições. Neste ano, na Seção São Paulo, vimos coletivos governistas disputando para ver quem seria o primeiro deles a declarar que o sindicato deveria apoiar a candidatura do Lula ao quarto mandato.
Consideramos essa postura um erro básico (e grave) na condução do sindicato, ainda mais no caso do SINASEFE, que é um sindicato de servidores federais cuja contraparte é, justamente… o Governo Federal!
Vamos, então, refletir sobre o fato de essa atitude ser um erro, para enfim propor um rumo de independência para o SINASEFE.
Sobre o mérito
O Governo Lula-Alckmin já mostrou sua orientação em alto e bom som. Promessas da campanha de 2022, como a da reestatização da Eletrobrás e da revogação da reforma (anti)trabalhista de Michel Temer, para citar apenas 2 exemplos, simplesmente não foram cumpridas.
O famoso e prometido ajuste social virou Arcabouço Fiscal (nome rebuscado para o novo Teto de Gastos), bem no lombo da classe trabalhadora brasileira. As privatizações, recapadas como “parcerias público-privadas” caminham mais rapidamente que no governo de Bolsonaro. O entreguismo também corre solto, apesar dos bonés e das palavras de ordem de “soberania”, como pudemos observar no acordo Mercosul-Europa, na abertura irrestrita aos datacenters estadunidenses, no veto à criação da Terrabras, no silêncio e na conivência contra os irmãos cubanos e venezuelanos e, mais recentemente, na fala do Ministro da Defesa “abrindo as portas” à invasão dos EUA.
Tanto Tebet um ano atrás quanto Durigan poucos meses atrás já soltaram o verbo: vença quem vencer, será preciso destruir os pisos constitucionais da saúde e da educação para que seja possível cumprir com o Arcabouço Fiscal. O recado está dado e não adianta nos fingirmos de desavisados.
Pensando mais especificamente no caso da educação federal, não podemos esquecer que algumas promessas arrancadas nos acordos da greve de 2024, permanecem não cumpridas, além de terem surgido novos ataques às nossas carreiras (como a desvinculação da malha salarial EBTT e o fim do RJU).
Considerando todos esses aspectos, será que vale a pena emparelhar nosso sindicato a uma lógica eleitoral, dando “carta branca” a este Governo somente porque, do outro lado, temos o bolsonarismo? Acreditamos que não.
Sobre o método
Vamos supor que este Governo Lula-Alckmin tivesse sido maravilhoso, um verdadeiro governo revolucionário; vamos imaginar que Che Guevara redivivo em carne e osso tivesse sido Ministro da Economia (me desculpe, Che!) e a alma de Paulo Freire tivesse guiado a mão do Camilo Santana (que, na realidade, foi guiada por um outro Paulo: Lemann!). Nesse caso, faria sentido um apoio declarado e incondicional do sindicato a este Governo?
Na perspectiva de um sindicato de luta, comprometido com a classe dos oprimidos, a resposta sempre é “não”. A função do sindicato não é fazer campanha eleitoral por A ou B, e sim manter sua independência para defender a categoria, porque se assim não for, toda a luta sindical sai enfraquecida, já que o governo (qualquer um que seja) saberá que poderá controlar o sindicato e submetê-lo a seus interesses.
Sobre o futuro
Se estaremos perante um Lula 4 (cujo único mérito é ser melhor que Bolsonaro 2), a única coisa que vai garantir nossos direitos é nossa luta. E que credibilidade e força vai ter uma luta conduzida por um sindicato governista? Nenhuma!
E se, no final de outubro, estivermos perante um Bolsonaro 2? Apesar do cenário mais desfavorável, novamente ter mantido o sindicato na independência é o que pode impulsionar a credibilidade e ajudar a mobilizar a classe, a fim de garantir uma força de resistência maior frente a um governo fascista.
É preciso deixar claro que reivindicamos a independência do sindicato de partidos políticos, campanhas políticas e governo não por uma questão de princípio ou como demonstração de suposta pureza ou radicalidade. Reivindicamos essa postura porque acreditamos que seja a mais eficaz para defender nossos interesses como classe trabalhadora e como oprimidos. Ao sermos independentes, visando somente as conquistas para a classe e para os oprimidos, não temos nada a perder, e sim tudo a ganhar.
Viva a democracia! Morte aos fascistas! Por uma luta sindical forte e independente!
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