Sindicato “de luta” e governo “em disputa”: como os erros de análise e tática enfraquecem a luta da classe trabalhadora

 

Sindicato “de luta” e governo “em disputa”: 

como os erros de análise e tática enfraquecem a luta da classe trabalhadora

 

Para agir bem, é útil raciocinar bem. Se assim é, acreditamos que é preciso uma análise cuidadosa de duas expressões muito faladas e ouvidas no SINASEFE (SP e nacional) e que se mostram interligadas. A primeira é a reivindicação — até com orgulho — de que o “nosso sindicato é de luta”; a segunda é que “o governo Lula está em disputa”.

A primeira expressão parece até óbvia, afinal, o que um sindicato deveria fazer senão lutar? Olhando com cuidado, na verdade, se percebe — até porque vários companheiros falaram abertamente isso! — que “sindicato de luta” serve para substituir outra expressão: “sindicato com independência (de classe)”. 


E por que a independência sindical cria tanto medo? Porque um sindicato independente é o sindicato mais forte e mais eficaz para mobilizar e defender tanto a categoria quanto, no geral, as classes oprimidas, mas sob o preço de não funcionar mais como burocracia a serviço da eleição de Lula. Quase todos os grupos políticos que atuam no sindicato já declararam, formalmente ou não, apoio ativo à reeleição de Lula e o uso da máquina do sindicato para esta finalidade.

Existe o problema do desvio de função que isso representa (sindicatos, em tempos normais, não deveriam fazer campanha eleitoral) e existe o problema político de um sindicato de trabalhadores e trabalhadoras defender um governo (e a sua reeleição!) que tantos golpes deu nos oprimidos somente neste último madato (Arcabouço Fiscal, cortes no BPC, falta de aumento do Bolsa Família, proibição institucional da denúncia da ditadura — tanto do 1964 quanto da tentativa de golpe de 2023 —, privatizações e PPPs, o desaparecimento do tão esperado “ajuste social”, a entrega das terras raras e do petróleo da Amazônia ao imperialismo, entre muitos outros).


Vamos deixar as coisas nítidas: entre o governo fascista da família Bolsonaro e o governo democrático de Lula, não temos dúvidas nenhuma que o segundo, para os oprimidos, seja melhor que o primeiro. Mas a questão ainda assim continua: o sindicato deve assumir a tarefa de ser cabo eleitoral do governo Lula?


Acreditamos, evidentemente, que não. Não somente pelos motivos acima expostos, mas — e principalmente — porque essa postura enfraquece a luta dos trabalhadores. Não é por acaso que a nossa categoria, mesmo com uma forte greve de quase 3 meses, não conseguiu nenhum reajuste salarial em 2024; que o reajuste da educação foi o mais baixo entre todas as categorias federais; que o ponto docente está firme e forte (e a lista poderia continuar).


Lula, raposa esperta da velha política, sabe muito bem que, no que importa para ele (as eleições), muitos dos que gritaram e espernearam nesses últimos três anos (sobretudo dos aparatos burocráticos) vão responder ao chamado do “patrão” e se alinhar à campanha eleitoral. Nem vão abrir uma “mesa de contratação” com o governo para, pelo menos, barganhar o apoio eleitoral em troca de medidas concretas para a classe. Não, não: é dado tudo “de graça” e, kantianamente, “a priori”. Sendo assim, por que o governo deveria se preocupar com a greve da categoria ou com as consequências do não cumprimento dos acordos, se, no fim das contas, sabe que pode contar com a amigável burocracia sindical e sua sempre fiel campanha eleitoral (seja por interesse pessoal ou por erro de análise política)?


A postura errada de muitos coletivos sindicais (e políticos) frente ao governo é justamente fruto também de um outro (auto?)engano: a afirmação de que o governo Lula estaria “em disputa”, entendendo com isso que este governo estaria disponível para dialogar e fazer concessões à sua base. Muitas vezes, são citadas lutas exitosas como prova disso, sendo a última a luta dos indígenas do rio Tapajós.


Na verdade, tudo isso apenas prova que o governo Lula, diferente do governo Bolsonaro, é, como já afirmamos antes, democrático, já que não mandou nem a polícia nem o exército para cima dos manifestantes. Fora isso, a suposta disputa está só na cabeça de quem a invoca.


Para deixar o ponto o mais nítido possível: todo e qualquer governo, em democracia, está “em disputa”: o infame governo Bolsonaro teve que promulgar, goela abaixo, o Auxílio Emergencial de R$ 600,00 durante a pandemia, assim como teve que aumentar o FUNDEB e estabelecer o piso da enfermagem. Tudo isso foi extorquido do governo miliciano pelas pressões da sociedade, inclusive as pressões populares. Assim, quando Lula revoga a privatização dos rios amazônicos, segue exatamente o mesmo processo.



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