Reflexões sobre o papel do Brasil diante dos recentes ataques imperialistas



É sabido por qualquer pessoa que acompanha os noticiários nos últimos meses que, além dos constantes ataques à Palestina, os Estados Unidos  iniciaram mais recentemente uma ofensiva direta à América Latina, tendo como principais alvos Venezuela e Cuba e, faz poucos dias, começaram a guerra aberta ao Irã.

Venezuela

No caso da Venezuela, o ano de 2026 se iniciou com o absurdo sequestro do presidente Nicolás Maduro e da sua esposa, orquestrado por Trump, numa clara violação de todas as regras do Direito Internacional. O ataque criminoso foi um sucesso (pelo menos, parcial) do imperialismo: não apenas porque conseguiram raptar o presidente, mas porque com esta ação (extremamente violenta: mais de 80 soldados venezuelanos e cubanos morreram) a administração venezuelana passou a ser refém dos EUA. Em menos de um mês, o petróleo venezuelano foi entregue de volta ao imperialismo (Reforma da Lei dos Hidrocarbonetos, aprovada por todo o governo e todo o parlamento em 29 de janeiro ). O Trump - diferentemente dos seus predecessores - abandonou a retórica dos “direitos humanos” e da “exportação da democracia” e foi direto ao ponto: a intervenção na Venezuela é para pegar o petróleo. Ponto.
Este ataque tem pelos menos quatros objetivos, interconectados entre eles, ao nosso ver: por um lado, garantir o controle estadunidense sobre as maiores reservas de óleo do mundo. É importante destacar que os EUA sempre foram um petro-estado, mas, a partir dos anos 80, a capacidade extrativa foi diminuindo devido ao esgotamento dos poços. Foi somente no novo milênio que, com a utilização da técnica do fracking (extremamente perniciosa pelo meio ambiente, diga-se de passagem), os EUA voltaram a ser autossuficientes (e até a exportar) petróleo e gás.  Contudo, agora, também o petróleo extraído com esta técnica está chegando num plateau: se faz portanto necessário, para os EUA, fortalecer a sua base produtiva, garantindo  o controle das reservas venezuelanas. 
Em segundo lugar, agora que a hegemonia econômico-monetária dos EUA está cada vez mais vacilante (enfraquecida continuamente pela produtividade da economia chinesa e pelo crescimento de relações comerciais no mundo acontecendo em moedas diferentes do dólar), o país precisa ter um “substrato material” que garanta o valor da sua economia, dos títulos do tesouro e do próprio dólar. Neste sentido, nada melhor que o petróleo venezuelano.
Em terceiro lugar, esta mossa mira retirar o aporte petrolífero que a Venezuela fornece à China. Apesar de estar rapidamente reconvertendo a sua matriz energética visando se tornar um “eletro-estado”, a China ainda tem uma demanda alta de petróleo e não possui jazidas próprias, dependendo, praticamente por completo, de fornecedores externos.
Por fim, esta administração deixou nítido que está voltando a endossar a doutrina (D)Monroe: “o Continente Americano deve ser o quintal dos Estados Unidos”. Frente ao conflito com a China (e, marginalmente, com a Rússia), a relativa liberdade da qual gozamos na América Latina na virada do milênio tem que desaparecer e os países da América Central e do Sul devem voltar a servir  100% aos interesses do patrão estadunidense.

Cuba

Por este mesmo motivo Trump determinou, logo após o ataque à Venezuela, uma intensificação sem precedentes do bloqueio criminoso contra Cuba: além de proibir o abastecimento de petróleo que antes a Venezuela garantia à ilha, o homem laranja impôs que nenhum navio do mundo pudesse levar energia a Cuba. O motivo parece-nos totalmente político: após quase 70 anos, os EUA decidiram  tentar destruir de vez a experiência de independência e construção socialista da ilha caribenha. É importante destacar que somente a solidariedade internacional (e não as fantasias geopolíticas) poderão salvar Cuba e o seu povo.

Irã

Por fim, estamos vendo nos últimos dias que os EUA deflagraram - com o aliado nazi-sionista - uma verdadeira guerra contra o Iran. Novamente, entendemos que existem, como no caso da Venezuela, pelos menos quatro objetivos: 1. tomar controle de grandes reservas de óleo e gás; 2. aproveitar-se desse controle para fortalecer a base material que valoriza os títulos da dívida e o valor do dólar; 3. privar a China de um fornecedor importante de hidrocarbonetos (juntos, Venezuela e Irã forneciam à China 14 % de todo o petróleo); 4. fortalecer o domínio do estado nazi-sionista de Israel na região.  Quanto ao último ponto, lembramos uma fala dos anos 80 do então senador Joe Biden no congresso, afirmando que Israel é, para os EUA, o maior porta-aviões que eles têm na região. O principal adversário do estado genocida de Israel é justamente o Irã e  a sua destruição deixaria a estrada aberta para a costrução da Grande Israel, um enorme estado nazista se esticando do Nilo ao Eufrates. 

O que fazer?

E o que sobra para nós, trabalhadoras e trabalhadores de um país periférico e sujeitado ao domínio (por enquanto político-econômico) dos EUA? A única coisa que sempre nos resta: a luta de classe internacionalista!
Em primeiro lugar, precisamos denunciar os erros (ou as malandragens) cometidos pelo governo brasieiro: vetar a entrada da Venezuela nos Brics no ano passado e não reconhecer a eleição de Maduro foram todos elementos que isolaram a Venezuela e enfraqueceram ainda mais a sua posição. Os comentários e as notas genéricas sobre o bloqueio a Cuba e a guerra ao Irã também são lamentáveis e não fortalecem as lutas anti-imperialistas. 
Se o cálculo do Lula é manter não chamar atenção (ou melhor, acovardar-se) diante o Trump na esperança de ter clemência e escapar do jogo do imperialismo, acreditamos que o resultado será terrível. Perderemos, por um lado, qualquer credibilidade perante às outras experiências latino-americanas e, por outro, acreditamos que isso não irá parar o movimento de conquista dos EUA.
É importante ressaltar como já agora o Brasil é vítima do imperialismo (na esfera econômica): a questão das terras raras mostra como o governo está pisando em ovos; o acordo Mercosul-UE é um grande retrocesso na perspetiva do país - sela o papel do Brasil como grande fazendão da Europa, colocando-se aberto às mercadorias de maior valor agregado que vão invadir o país; a privatização de rios para a multinacional estadunidense Cargill, representando uma entrega ao capital estrangeiro dos recursos naturais do Brasil - felizmente revogada, graças à corajosa e firme luta dos povos indígenas do rio Tapajós; o petróleo cada vez mais nas mãos de acionistas estrangeiros e a própria refinação cada vez mais terceirizada; a instalação de datacenters em território nacional, prometida pelo intragável Haddad, é uma falsa modernização: a tecnologia e o controle dos dados ficará nas mãos das multinacionais USA; sobrará ao Brasil o desgaste ambiental (consumo de água) e os apagões/encarecimento da conta de luz devidos o altíssimo consumo energético;  por fim, nosso atual ministro da Fazenda provém do mundo das big techs,.etc.
Como reverter esta situação no Brasil e ajudar concretamente os nossos irmãos/ás na Venezuela, em Cuba, no Iran? A única solução, nos parece, é travar a nossa luta aqui e agora, sabotando de todas as maneiras possíveis os desenhos do imperialismo. Che Guevara, quando foi lutar pela libertação da Bolívia, disse que aquela luta não era só pela libertação do povo Boliviano, mas era uma tentativa concreta de ajudar a luta do povo vietnamita, abrindo mais uma frente contra o imperialismo estadunidense. Pois bem, acreditamos que ainda seja este o caminho: através da luta dos oprimido e oprimidas no Brasil, abrir “frentes” que economicamente (greves) e  politicamente (manifestações) ataquem e desgastam o imperialismo e o seu domínio econômico e tragam assim a solidariedade e a ajuda concreta aos povos oprimidos. 
Não podemos esquecer que se a máxima brutalidade do imperialismo se expressa nos ataques armados e nas guerras, a linfa que o sustenta é a sua capacidade de domínio na economia: neste sentido, a luta dos indígenas do rio Tapajos que tirou das mãos da Cargill o domínio dos rios e a capacidade de escoar a maldita soja para os portos, é um golpe fortíssimo ao imperialismo Yankee.






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