Direção governista e abandono da luta: mais uma história de paixões tristes.
Quinta-feira, dia 26 de março, tivemos a AGE (Assembleia Geral Extraordinária) da seção do SINASEFE-SP, para, entre outras coisas, deliberar sobre a deflagração da greve. Foi uma reunião longa, com quase 4 horas de duração e debates acirrados. Pela primeira vez na nossa memória de militantes sindicais, houve um empate: metade dos votos foi favorável e a outra metade, contrária à deflagração. Na plenária em Brasília, no final de semana seguinte, a proposta de deflagrar a greve não passou e permanecemos “em mobilização”, com paralisação prevista para o dia 1° de Abril.
Acreditamos que seja importante entender como chegamos a este quadro, apontar quais responsabilidades a direção sindical carrega e refletir sobre como tudo isso vai repercutir no nosso futuro como trabalhadores/as do IFSP.
Desmobilização
Uma das palavras mais repetidas na última AGE foi “desmobilização”. Ao se fazer o levantamento das situações locais, foi revelado que muitos campi não conseguiram fazer assembleias, outros tantos nem tiveram representantes relatando sua situação. Onde as assembleias aconteceram, em geral, a participação foi baixa.
Em parte, este cenário é compreensível: os docentes estão voltando em fevereiro das férias, a “rotina semanal” ainda não está assentada, o carnaval no meio de fevereiro não ajudou. É preciso considerar também que há unidades com calendário defasado e, no geral, devido à força da greve em 2024 e aos sentimentos contrastantes que acompanharam o seu fim (vitória/derrota parcial), existem ainda um certo cansaço e um certo “medo” de retomar a luta.
Diante de um quadro assim, acreditamos que a tarefa de militantes seja justamente o oposto da resignação: é preciso remobilizar, promover agitação política, dialogar com a base e reconstruir as condições de luta. Tentamos fazer isso todos os dias nos nossos campi e nas ocasiões propícias. Mas isso nos leva a uma pergunta inevitável: o que fez a direção estadual para enfrentar esse cenário e promover a mobilização da categoria?
Álibi
Para uma direção sindical governista, como a nossa, foi bastante conveniente ficar de braços cruzados, esperando a assembleia para se aproveitar do real cansaço da base. Em vez de assumir a tarefa de enfrentar a desmobilização, a coordenação estadual acabou contribuindo para reforçá-la e, posteriormente, utilizá-la como argumento contra a deflagração da greve.
A própria estratégia organizativa adotada teve um papel importante nisso. Ao incentivar assembleias deliberativas locais em uma seção sindical de abrangência estadual, a coordenação fragmenta a discussão coletiva e estimula a divisão da categoria: resultados negativos em unidades desmobilizadas passam a gerar insegurança justamente nos campi mais dispostos à luta. Ao mesmo tempo, a coordenação não monitora sequer o agendamento dessas assembleias, abdicando de garantir que elas ocorram de fato. Mesmo tendo pleno conhecimento de quais campi não possuem representantes sindicais, nenhuma estratégia foi elaborada para viabilizar assembleias nesses locais — justamente onde elas seriam mais necessárias.
Também não houve um método consistente de comunicação com a base. Ao longo de todo o mês de fevereiro, não foi produzido um só panfleto para mobilizar, nem foram organizadas lives para discutir o RSC-TAE ou a destruição da carreira EBTT, e sequer foi aproveitada a ocasião de ter o Lula comiciando em Mauá para colocar os temas da categoria no debate público. Presume-se que algumas poucas mensagens — quando existem — em redes sociais ou grupos de WhatsApp sejam suficientes para informar milhares de trabalhadores sobre ataques graves à categoria.
Depois de todo esse cenário, que pouco contribui para a conscientização e mobilização da base, diante de um resultado contrário à deflagração da greve, a coordenação estadual rapidamente conclui que a categoria está desinteressada ou desmotivada. No entanto, uma conclusão desse tipo só poderia ser sustentada após o esgotamento de todas as tentativas reais de diálogo, esclarecimento e mobilização dos trabalhadores — algo que claramente não ocorreu. Chega a ser politicamente desonesto não atuar para mobilizar e depois aproveitar-se da desmobilização para afirmar que a luta é inviável.
A nossa leitura política
Na esquerda temos uma tradição - às vezes, mais verbalmente reivindicada do que realmente praticada - de (tentar) fazer análises concretas das situações. Daí, o nome “materialismo”. Sem incomodar Marx, a sabedoria popular também nos assiste: “a cabeça pensa onde o pé pisa”. Olhando para este prisma, ficou fácil entender por que a coordenação estadual atuou desta maneira: por governismo.
Na sua esmagadora maioria, quem atua como chefia do sindicato e quem pertence àquela órbita, mesmo não tendo cargos atualmente, militam ou simpatizam em grupos políticos, correntes partidárias, coletivos que constituem a base do governo - principalmente PT e PSOL, embora não faltem elementos de outro grupos, formalmente mais independentes, mas que adoram se fazer de escudos humanos para o governo do LULA-ALCKMIN.
Não se trata de conspiracionismo, nem de insinuação, é um fato provado que para muitos e muitas a (suposta) defesa do governo passa a ser prioridade em ano eleitoral.
Esta simples explicação permite ordenar e dar sentido a todas as ações (ou falta delas) e posicionamentos contra à deflagração da greve.
Quem não acompanha as dinâmicas sindicais, os congressos e os debates poderia pensar que, talvez, estejamos fazendo uma caricatura, um exagero. Pois bem, eis uma cena que ocorreu justamente na última AGE, que ilustra plasticamente a situação que descrevemos acima. Após aparecer 13 nomes para o encontro das militantes do SINASEFE, começaram a surgir comentários sobre o número, sendo ele o da legenda do PT. A mesa que geria a assembleia, representando, portanto, a direção estadual, pronunciou “É 13 daqui até outubro!” Perguntamos: qual é a moral, depois de um grito desse, de se discutir uma greve, justamente contra o governo Lula?!
Pensem em todas as lutas que saíram ganhadoras nos últimos tempos, pensem na grande luta dos indígenas do rio Tapajós, que, com uma ocupação de 33 dias da sede de uma poderosa multinacional, conseguiram derrotar o governo no projeto de privatização de rios amazônicos. Alguém imagina que alguma liderança desta luta radical e firme pudesse afirmar algo parecido nas, com certezas acaloradas, próprias assembleias? Obviamente, não, porque somente quando a luta é levada a sério, independentemente de quem esteja no governo, ela pode sair vitoriosa.
Consequências
Cada traição e cada cálculo político errado das lideranças não acontecem de graça para o sindicato e para a classe trabalhadora. Eles vêm com um custo e, geralmente, quem paga são os próprios trabalhadores. O governo está vendo que, frente uma parte dos acordos da greve de 2024 descumpridos, os trabalhadores dos IFs não conseguem articular uma luta contundente, também porque as burocracias sindicais seguram (ou até sabotam) o movimento. O governo toma nota: na próxima ocasião se lembrará que, descumprir os acordos conosco poderá ser feito quase de graça, sem pagar um grande preço político.
Mas quem se lembrará da pávida atuação dos representantes sindicais serão também os trabalhadores e trabalhadoras - após os erros na condução da greve de 2024, mais uma etapa de servilismo para com o governo. A moral do nosso sindicato continua diminuindo frente à categoria.
Tristes Conclusões (e uma esperança)
Reconhecemos todas as dificuldades de uma possível greve neste cenário, e absolutamente estamos cientes que um movimento neste sentido não seria fácil, nem teria garantia de vitória - aliás, nunca se tem esta garantia. Mas isso não pode ser uma desculpa para a inação, que faz perder a credibilidade frente à categoria e a força frente a nossa contraparte (o governo).
Fomos chamados de infantis e irresponsáveis por defender as razões não da luta em abstrato, mas da luta concreta, ou seja, neste momento, da greve. Pois bem, irresponsabilidade é subordinar os interesses da classe a projetos políticos-eleitorais; malandragem política é utilizar o sindicato como braço movimentista de projetos políticos-eleitorais, que nada deveriam ter a ver com a militância sindical.
Não será fácil, mas é possível reverter esta situação: com militância, trabalho de base, disputa de corações e mentes e clareza de objetivos, será possível retomar a luta (de verdade!) e recolocar o sindicato no seu lugar próprio, ou seja, como ferramenta a serviço da luta das trabalhadoras e dos trabalhadores na marca da independência de classe.

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