Sobre a chacina no Rio de Janeiro
Os fatos são notórios: a polícia do Rio de Janeiro efetuou, no dia 28 de outubro de 2025, uma das maiores chacinas da história do Brasil republicano, com números oficiais ultrapassando 115 mortos. Pessoas decapitadas, outras com balas na nuca e nas costas. Uma verdadeira execução em massa, marcada pelo racismo: a chacina ocorreu nos complexos do Alemão e da Penha e a maior parte das vítimas era de pessoas negras.
Além do repúdio, além da raiva e da indignação, que declaramos com força, além da solidariedade a todas as vítimas, às suas famílias, aos seus amigos, esta chacina demanda também uma reflexão e análise por parte da militância. Vamos por pontos.
A democracia
Elegemos o presidente Lula em 2022 para evitar o perigo de uma ditadura militar-burguesa, possivelmente a ser instaurada pelo mandato de Bolsonaro se fosse reeleito. Isso foi uma vitória e um avanço. Mas que democracia é esta? Uma democracia onde o “Estado de direito”, a “presunção de inocência” e todas as coisas justas são garantidas apenas à população branca e de classe média? Para todos os outros (indigenas, negros, moradores de periferias e de favelas, pobres em geral) nada disso existe; o que existem são prisões arbitrárias, invasões de domícilios e, sobretudo, a pena de morte. Democracia é um termo amplo e vago, tal como “liberdade”: chamamos de democracia a Atenas do Século V antes da Era Comum, assim como chamamos de democracia o Brasil de hoje, sendo que são sociedades completamente diferentes.
Esta democracia, ainda herdeira do regime escravocrata, embebida de classismo, embutida de violência, é uma democracia insuficiente, porque não é para todos e todas, e sim para poucos. É necessária uma grande mobilização popular, uma mobilização revolucionária, para mudar esta podre e corrompida democracia por uma democracia que seja para todos e todas, onde a cor da pele e o CEP sejam detalhes insignificantes, onde a justiça seja igual, de verdade, para todos, e, sobretudo uma democracia sem policiais, sem prisões e sem bilionários.
Pena de morte
No Brasil não existe, na “lei escrita”, pena de morte. Mas, na “lei aplicada”, ela é amplamente praticada: sem processo, sem júri, sem divisão de poderes. O policial é juiz, júri e carrasco, enquanto o “cidadão de bem” (na verdade, a parte mais fascista da população), a grande mídia, o Centro e a Direita batem palmas. E quem são os atingidos? Sempre os mesmos: trabalhadores negros, periféricos e pobres.
Qual é o papel do Estado e da classe dominante?
Seria muito engano pensar que esta ação violenta, covarde, intrinsecamente fascista do Estado brasileiro seja, de alguma forma, uma ação de combate ao crime organizado. Em primeiro lugar, porque, objetivamente, a maior parte dos assassinados eram trabalhadores, que provavelmente não faziam parte de nenhuma facção ou comando. Por outro lado, o próprio crime organizado somente existe com o suporte (ativo ou passivo) e com o bem estar (de amplos setores) do Estado e das suas classes dirigentes (alta burguesia). As armas do crime vêm, em grande medida, de militares e do Exército; as milícias - uma parte do crime organizado - são constituídas, em boa parte, por (ex)-policiais e (ex)-militares. Muitos políticos, capitalistas e latifundiários (as vezes, as três categorias coincidem) se servem de milicianos e assassinos de aluguel para matar indígenas, sem-terra, politicos honestos e comprometidos com as causas populares (ver o caso de Marielle, assassinada a mando dos irmãos Brazão, especuladores e políticos de Rio de Janeiro). Sabemos que a lavagem de dinheiro que o tráfico demanda só é possível se o sistema bancário e financeiro brasileiro estiver cooperando. Portanto, o crime organizado é, no mínimo, funcional ao capitalismo, ao Estado e à sua classe dominante.
E o Governo Federal?
O papel do Governo Federal deve ir além de tweets genéricos ou de assépticos comunicados oficiais. É preciso que o governo demonstre o mínimo de compromisso com a vida do povo pobre e trabalhador, com os direitos humanos e com o avanço da democracia, para essas pautas deixarem de ser um privilégio de poucos e se tornarem uma direito de todos de fato. Nesse sentido, espera-se de um governo de Esquerda a capacidade (ou ao menos a coragem e vontade política) de pautar o debate da segurança pública a partir da construção e mobilização em torno de propostas de PLs e MPs despenalizantes e antiproibicionistas. No caso específico deste massacre, o Governo Federal deve agir prontamente, federalizando a segurança do Rio de Janeiro e instaurando uma investigação independente após o afastamento do governador Claudio Castro.
Qual é o nosso papel enquanto educadores?
No meio de todas as dificuldades, nós trabalhadores da educação (federal) temos o dever moral e civil de questionar e problematizar com os nossos alunos o que aconteceu; fazer freirianamente a “leitura do mundo” para que esta violência não seja banalizada e normalizada. Deixar passar isso batido, continuando - como se nada tivesse acontecido - a estudar a fórmula de Bhaskara e as ligações iônicas é dar (mais) um passo rumo a uma sociedade desumanizada e desumanizadora.
Qual é o propósito deste massacre?
Todas e todos os trabalhadores querem mais segurança. Mais segurança no local de trabalho, na saúde, no trânsito, no acesso a uma moradia digna, e também mais segurança de não ter o próprio celular roubado, de não sofrer assalto à mão armada e de não sofrer violência sexual. A resposta da Direita (ultimamente defendida por muitos políticos “de Esquerda”) é mais policiais, mais armas, mais repressão, mais prisões e diminuição da maioridade penal. Então, eleitoralmente, operações como a do Rio de Janeiro servem para a Direita (e a “Esquerda” de Direita) perpetuar o próprio poder, a partir da demagogia de que a solução para a segurança pública se resume a “matar bandido”, e não é no fundo uma questão de desigualdade social.
Mas existe também uma outra “utilidade” neste tipo de massacre: numa sociedade capitalista cada vez mais injusta, mais violenta, que mói cada vez mais pessoas e mais brutalmente, estas chacinas servem para lembrar ao povo trabalhador qual é o lugar dele; é um lembrete para nunca levantarmos a cabeça, porque a violência repressiva do Estado está lá, pronta para entrar em ação.
O que fazer?
Convocamos todas as organizações populares a se manifestarem contra esta violência infame do Estado burguês brasileiro, dando toda a solidariedade aos atingidos. Convidamos todas e todos os companheiros para se organizarem (em partidos, movimentos, sindicatos, organizações de bairro, etc.) e lutarem ativamente contra esta democracia elitista, violenta, repressora, em defesa de uma democracia universal, sem ricos e sem polícia. Só uma verdadeira rebelião popular pode pôr um fim às chacinas policiais.
Visando esse horizonte, no imediato, defendemos (e cobramos um posicionamento a respeito do SINASEFE):
a remoção, investigação e responsabilização do governador Claudio Castro, mandante político da chacina;
a remoção, investigação e responsabilização de todos os policiais envolvidos na chacina: desde os chefes até os últimos dos militares envolvidos;
a desmilitarização da polícia, substituída por uma organização autogerida de trabalhadores eleitos;
a legalização e regulamentação das drogas (já que é sabido que a política de guerra às drogas é um dos principais mecanismos usados para reprimir o povo negro, pobre e periferico);
o fim do encarceramento em massa.
FIM DA PM JÁ! FORA CLAUDIO CASTRO!
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