O PAPEL DO SINASEFE FRENTE À CRISE DO GOVERNO LULA



       É sabido por todos os que acompanham os noticiários (tanto da mídia hegemônica quanto da mídia independente), as conversas nas filas dos supermercados e as últimas pesquisas de opinião realizadas no Brasil que o Governo Lula 3 está em crise, algo que tem se intensificado ainda mais agora em 2025. Grande parte desta crise se deve às escolhas em relação à política econômica do país, que tem adotado um modelo claramente neoliberal de gestão da dívida pública, ancorado no Arcabouço Fiscal. Assim, ao mesmo tempo em que o Ministro da Fazenda Fernando Haddad apresenta projetos de austeridade com os infames cortes no BPC e o teto para o aumento do salário mínimo, atacando diretamente a parte mais vulnerável da população, não vemos essa mesma  lógica de “redução de gastos” sendo aplicada para os rentistas e outros setores da burguesia, como o agronegócio.


As altas taxas de juros continuam a todo vapor, aumentando ainda mais o já abusivo repasse do Estado para os banqueiros. Além disso, o aumento dos juros também dificulta a venda a prazo, diminuindo ainda mais o poder de compra dos trabalhadores.


Ao adotar tais políticas, o Governo Lula deixa de cumprir as próprias promessas de campanha que o fizeram derrotar Bolsonaro em 2022, gerando nos trabalhadores brasileiros, inclusive em uma significativa parte de sua base eleitoral, uma revolta contra a política econômica de Haddad, que estourou na polêmica do PIX. Apesar de ter havido certo sensacionalismo e até mesmo fake news, fomentados especialmente pela Extrema-Direita, já que o governo não havia proposto nenhuma tributação sobre o PIX, o fato é que a “crise do PIX” revela que uma parte cada vez maior da classe trabalhadora brasileira perdeu sua confiança no governo, por sentir na pele que, desde 2023, a postura de Lula-Alckmin-Haddad tem sido de completa rendição (para dizer o mínimo) às pressões do Capital Financeiro.


Curiosamente, essa crise tem deixado os sindicatos brasileiros numa “saia justa”: grande parte dos sindicalistas entende que criticar o governo num momento de crise é “fazer o jogo da Direita”. O argumento desse grupo é o de que, diante do risco de a Extrema-Direita voltar ao poder em 2026, é preciso apoiar o Governo Lula quase que incondicionalmente. Assim, críticas ao Arcabouço Fiscal, aos cortes no BPC e a outros ataques neoliberais testemunhados nos últimos anos devem ser evitadas pelos sindicatos, ou não associadas diretamente à figura do Lula, que precisa ser blindada para ter chances de uma reeleição em 2026. 


No caso do SINASEFE, a postura governista de grande parte dos dirigentes ficou evidente desde o período da greve de 2024, e tem continuado em 2025. Podemos observar que, nas Plenas, nas publicações em redes sociais e nos demais espaços de comunicação, o SINASEFE tem evitado tanto denunciar a política econômica neoliberal quanto até mesmo cobrar o governo Lula de forma mais ostensiva sobre os acordos da greve, até agora não cumpridos.

Há também um discurso equivocado, que visa proteger o governo nesta fase: a culpa do atraso na aprovação da LOA (e, portanto, da chegada da nossa recomposição salarial) seria do Congresso. Ora, é fato gravado na pedra que temos um parlamento, na sua maioria, de serviçais da burguesia e dos latifundiários; um parlamento cheio de entreguistas e ladrões. Mas, para além disso, não podemos esquecer que quando o governo que aprovar algo, ele consegue (como no caso do pacote de austeridade de Haddad, aprovado no final de 2024, em troca de generosas emendas parlamentares). Portanto, as responsabilidades de não cumprimento dos acordos de greve caem também sobre os ombros do governo.  


Diante disso, cabe aqui uma pergunta: qual deve ser o papel central de um sindicato? Apoiar incondicionalmente um governo mais progressista quando este estiver no poder, a fim de evitar a eleição de um governo pior no futuro; ou pressionar o governo (qualquer um que esteja no poder) para melhorar as condições materiais dos trabalhadores que ele representa?


Em outras palavras: se um governo (seja ele de Direita ou Esquerda) promove medidas que pioram as condições dos trabalhadores da educação federal (seja pela falta de reajustes salariais, seja pela falta de contratação de mais servidores, seja pelos cortes nos orçamentos destinados às UFs e IFs), qual é a lógica de um sindicato formado por esses mesmos trabalhadores defender tais medidas, ignorá-las, ou afirmar de forma derrotista que “não é possível fazer nada, pois não há correlação de forças e a conjuntura não está a nosso favor”? 


Entendemos que, ética e estrategicamente, um sindicato de servidores públicos não deve JAMAIS se comportar de maneira governista, mesmo que esta escolha seja mascarada de (falso) pragmatismo (“não há correlação de força”) e de (mesquinho) senso de responsabilidade (“cuidado que o fascismo vem aí!”). Afinal, a essência de um sindicato é defender os direitos dos trabalhadores, e não o Estado. Sem isso, o sindicato perde sua razão de existir, pois na prática está funcionando como porta-voz do governo. É esta defesa clara e incondicional de classe que garante, por um lado, as condições dos trabalhadores e, por outro, a defesa contra o fascismo. Ainda que as intenções alegadas pelos governistas sejam as de “evitar um mal maior”, é o imobilismo dos sindicatos e dos movimentos sociais, junto a governos progressistas cada vez mais neoliberais na prática, o que tem fortalecido cada vez mais a Extrema-Direita mundo afora.


Nesse sentido, é obrigação ética e estratégica que nós do SINASEFE continuemos cobrando (com muito mais firmeza) o cumprimento dos acordos de greve. Mais do que isso, é nossa obrigação lutar contra qualquer política de austeridade econômica, venha de que governo vier. Afinal, a defesa da educação pública (e dos seus trabalhadores e trabalhadoras) está na contramão de qualquer política econômica que retira dinheiro das áreas sociais enquanto o usa para o pagamento de juros da dívida pública, enriquecendo os banqueiros e destruindo cada vez mais as condições de vida da classe trabalhadora.


Por isso, chamamos todos os companheiros e companheiras à mobilização e luta em todas as formas necessárias e possíveis: só as nossas lutas poderão melhorar as condições dos oprimidos e barrar (de verdade!) a chegada de um governo fascista!


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