Qual é a postura de um sindicato de classe frente ao governo?

 Há anos temos observado a expressão “análise de conjuntura” sendo utilizada como desculpa “teórica” para uma “prática” de imobilismo e resignação, para um fazer político apequenado e mesquinho, atrelado a pequenas táticas. Na história dos movimentos dos oprimidos, entretanto, a análise de conjuntura deve ser uma ferramenta para travar lutas contundentes e decisivas. Precisamos urgentemente recuperar o sentido combativo dessa expressão, alinhada a uma perspectiva de práxis.

E por falar em análise de conjuntura... vamos lá!

 

O Governo Lula-Alckmin-Haddad

Nossos algozes não têm sentimentos; são “exterminadores do futuro” programados para uma única tarefa: nos explorar. Nós, ao contrário, amamos, nos entristecemos, nos apegamos, sentimos saudade e sentimos na nossa pele a dor da violência praticada contra o outro... enfim, somos seres humanos! Portanto, quando pensamos em todas as campanhas eleitorais, em todo o tempo e a esperança que dedicamos para eleger Lula na eleição passada, percebemos quão grande foi o “investimento emocional” em tudo isso. Pois bem... é dolorido, mas precisamos – de verdade! – fazer a análise de conjuntura.

Aquele Lula que, em troca da destruição da aposentadoria dos servidores públicos (Reforma de 2003) e da garantia de lucros estrondosos aos bancos, ao agronegócio e às mineradoras, construiu IFs e UFs, implementou cotas, aumentou o salário-mínimo e investiu muito em outras políticas públicas, morreu. O Governo Lula 3, diante de uma imposição das políticas neoliberais após a crise econômica mundial de 2008, não está entregando quase nada do que foi prometido em sua campanha e era esperado pelo povo quando o elegeu em 2022.

O governo Lula-Alckmin-Haddad pode ser “amigo” da democracia (usamos, afinal, a sua eleição para barrar, temporariamente, o projeto fascista de Bolsonaro), mas é inimigo dos trabalhadores, como a nossa greve claramente mostrou. Afinal, seu governo não comprou briga – de verdade – com ninguém, a não ser conosco!

Vamos parar de nos enganar com falsos argumentos:

- “Lula não pode fazer nada agora, mas no quarto mandato...”. Esse é o quinto mandato do PT, e até agora nenhum governo petista revogou nenhuma medida neoliberal implementada pela Direita (privatizações, reformas trabalhista e previdenciária, terceirizações, etc.).

- “Não é o Lula; é o Haddad, a Tebet, o Camilo Santana...”.  Mas afinal, quem escolheu esses ministros? E quem tem o poder de trocá-los, caso não estejam agindo de acordo com a proposta de governo escolhida pela maioria da população?

- “Lula quer, mas o Congresso não deixa...”. O Congresso brasileiro historicamente sempre foi conservador, inclusive nos períodos em que o governo Lula conseguiu avançar em algumas pautas; isso é motivo para o presidente chamar a população às ruas para pressionar o Congresso, e não para uma atitude de resignação antes mesmo de tentar propor seu projeto de governo. Isso sem contar o fato de o governo ter agido mais à Direita que o próprio Congresso no caso das recentes alterações no projeto do Novo Ensino Médio. E o Arcabouço Fiscal não foi proposta do Congresso, e sim do próprio governo.

 

Qual é o papel de um sindicato classista?

Se, como alguns sindicalistas defendem, o papel do sindicato é não incomodar o governo Lula-Alckmin-Haddad, pedindo licença para fazer greve e com receio de criticar demais o governo por medo de “fortalecer a extrema-direita”, então esse sindicato de classista tem somente o nome.

Taticamente, podemos, pontualmente, defender o governo (por exemplo, o fizemos acertadamente quando defendemos “votar em Lula para derrubar Bolsonaro”); porém, nosso papel principal, enquanto sindicato dos trabalhadores da educação federal, não é o de proteger o governo, e sim defender os trabalhadores e o ensino público federal, como parte de uma defesa geral da classe trabalhadora e dos oprimidos.

Se o governo se posiciona contra os trabalhadores, como está fazendo nesse momento (com a implementação do Arcabouço Fiscal, os ataques aos pisos da Educação e da Saúde, os congelamentos de verbas, a Reforma Administrativa, etc.), então, logicamente, é nossa obrigação nos posicionar contra esse mesmo governo, reivindicando uma esfera de independência que o sindicato deve ter.

Fazer malabarismo verbal (“A nossa greve não é contra o governo...”) enfraquece a nossa luta. Sim, nós lutamos contra o fascismo, mas lutamos também contra todas as medidas neoliberais que afetam a classe trabalhadora, mesmo quando quem as propõe é o “amado e saudoso” Lula. É nessas lutas que se concretiza a independência do sindicato: independência dos interesses de partidos e, ainda mais, do governo, seja de direita ou de “esquerda”.

Uma proposta de Reforma Administrativa (com o apoio do governo) já está tramitando. Essa é uma reforma que, entre outras coisas, vai limitar o nosso democrático direito à greve (direito esse, diga-se de passagem, já ameaçado pela última portaria do MGI, nº 1426/2024). Não iremos barrar isso com abaixo-assinados, notas de repúdio, twittaços ou outro tipo de “diálogo cordial” com o governo. Precisamos parar o país com ações diretas se quisermos ser ouvidos de fato.

Está mais do que na hora de nosso sindicato reconhecer essa situação, aceitá-la como ela é e (tentar) travar a luta que essa conjuntura merece.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Todo apoio à GREVE DOS ESTUDANTES!

FALSAS ANÁLISES

IFSP com 5 reitorias: boa novidade ou péssima mossa?